Inverter as pautas da grande mídia é um caminho básico para a imprensa independente. Ou isso ou pautar-se pelo que os hegemônicos não abordam. É o que faz mensalmente a revista Caros Amigos: quando não inverte as pautas que vemos nas mais vendidas revistas semanais brasileiras, a Caros Amigos vai buscar assuntos absolutamente ignorados pela mídia dominante.
Nos maiores jornais e revistas brasileiros, assim como nas emissoras de televisão, as pautas nacionais são sempre as mesmas: cultura das elites, esportes de alto rendimento, política institucional dos quatro grandes partidos do país, os dramas existenciais da classe média, as maravilhas da vida nas elites nacionais, a tragédia e o banditismo das periferias.
Ainda que seja difícil de acreditar, há vida além disso. E muita vida. A escolha das pautas da Caros Amigos deste mês de março, por exemplo, mostra uma vida social que ninguém vê, parafraseando o título do livro da grande Eliane Brum. Boa parte do que é ignorado, marginalizado, escanteado ou criminalizado pela mídia dominante está nessa edição. Pois vejamos:
- Uma entrevista com Silvio Tender, na qual o cineasta critica a falta de estímulo ao cinema político que beneficia apenas o cinema comercial. Onde você poderia encontrar críticas ao cinema comercial?
- Reportagem sobre aumento das mortes em hospitais psiquiátricos e luta antimanicomial. Como o suicídio, a questão dos manicômios parece ser proibida na imprensa dominante brasileira. A novela com Bruno Gagliasso criou um debate que durou exatamente o seu tempo de exibição.
- Uma entrevista com John Holloway, filósofo e economista marxista fortemente influenciado pela ideia de “mudar o mundo sem tomar o poder”, ideário básico do zapatismo e título de seu livro mais famoso, escrito em parceria com o Subcomandante Marcos. Onde há espaço para o pensamento zapatista ou para qualquer forma de ideário anticapitalista na mídia dominante?
- Reportagem sobre a fábrica Flaskô, em Sumaré (SP), ocupada pelos trabalhadores em 2003 e que hoje funciona sem patrão, com os próprios trabalhadores gerindo a empresa. Onde você pode encontrar matérias sobre experiências de gestão comunitária de fábricas dando certo?
Isso tudo são só alguns exemplos, e resumem-se a trabalhos de reportagem, deixando de lado os excelentes artigos que completam a revista.
A Caros Amigos e todo e qualquer veículo de comunicação que se propõe a inverter as pautas óbvias ou simplesmente deixá-las de lado para mostrar o que ninguém mostra, faz Jornalismo com jota maiúsculo, jornalismo corajoso, inconformado, desacomodado, faz jornalismo popular, no ótimo sentido. Dessa forma, mostra novos mundos, novas possibilidades e novas esperanças para o jornalista e para o leitor. Subverte.
Postado por Alexandre Haubrich
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“Ainda que seja difícil de acreditar, há vida além disso”
Ótimo Alexandre. Abç
O século XX foi o ponto mais horrível ,pois fez com que o sistema economico tomasse quase todos os setores da sociedade.A mídia por exemplo,filtra todo o tipo de ideia referente ao desenvolvimento popular.
Falar sobre a Flaskô ,de jeito nenhum!
Ela uma demonstração de independencia popular nos negócios.Acaba com o culto de adoração ao chefe e aos “grandes da midia”.Que grande não são nada.
A midia cultua hoje,os atores ,os patrões e os ricos.Pessoas que nem te conhecem e não dão a mínima para você e ainda sim a midia faz perder seu tempo com eles.
Esse sistema tem que mudar.Não pode existir o culto a economia na mídia.
ÓTIMO!
Vamos renovar, vamos sentir o cotidiano. Vamos falar de gente.
Além das ótimas reportagens desse mês a Caros Amigos ainda tem as colunas mensais do Stedile, do Arbex Jr. do Marcos Bagno, do Fidel, do Joel Rufino e outras mais que são muito boas e trazem discussões importante sobre o Brasil e o mundo.
A Revista passa por dificuldades financeiras, assim como todos orgãos da mídia que se propõem em abrir espaço para outros debates e com uma visão mais progressita e emancipada. A manutenção dessas mídias é fundamental para nossa sociedade.
Ótimo texto.