Geração de conteúdo

20 jan

O post a seguir é uma colaboração especial de Milton Ribeiro*

A esquerda tem os melhores escritores, os maiores artistas, os mais renomados cientistas sociais, os mais influentes historiadores, enfim, produz os mais importantes bens culturais de nosso tempo, mas não tem um grande jornal gerador de notícias, um daqueles que paute a mídia. Fui muito rápido? Então vamos por partes.

Moro em Porto Alegre. Tenho 53 anos. Então, a maior parte da minha vida aconteceu sem internet. Gostava daquele negócio de receber o jornal em casa pela manhã. Assinei vários: Correio do Povo, ZH, Folha de São Paulo, Diário do Sul, assim como as revistas Veja e Isto É. Hoje não assino nenhum, nada. Se me obrigassem a escolher, ficaria com o Jornal do Comércio. Fui dos primeiros a suspender as assinaturas e a passar à internet o papel que o jornal tinha em minha vida. Os cafés da manhã ficaram irremediavelmente menos charmosos, os teclados ficaram ameaçados pelo farelo do pão, mas, enfim, as novas mídias deviam trazer em si a evolução.

Quando Lula assumiu, passamos a ter no governo uma esquerda light cuja inédita novidade era uma boa dose de preocupação com a distribuição de renda no país. Jamais pensei que, sob um governo do PT, a força hegemônica do PIG fosse se acentuar, mas o fato é que ela não apenas se acentuou como deixou de ser sobranceira e “elegante”. Digo mais, digo que a truculência do PIG evitou a ocorrência mais comum e trágica da esquerda: a divisão em tendências, as brigas internas, muitas vezes causadas por questões menores ou, desculpem, filigranas éticas. Há blogs de esquerda que volta e meia procuram fazer alguma crítica interna, mas esta é solapada pelo PIG, o qual vem nos bater de tal forma que acaba nos forçando a uma unificação, fazendo-nos engolir todas as nossas diferenças com a maior naturalidade.

Como disse, a necessidade de desmontar e demonstrar os factóides criados pelo PIG acaba forjando uma “frente”. Porém, este papel de jogador de tênis que rebate o saque do adversário é bastante simples e não elimina a necessidade do sacarmos. Pois somos pautados pelo PIG. Ele gera as notícias, nós batemos de volta. Temos que passar a sacar também, pois é extremamente limitador apenas responder.

Gostaria de ter certeza de que isto é uma fase.

O ponto fraco de nossa posição é, claramente, a geração de conteúdo. Estamos em situação reativa, quase sem propor. É uma notável dificuldade colocar-se à frente, mas não podemos seguir jogando sem o saque, sem trazer bolas novas ao jogo. Somos pautados pelo PIG porque custa caro fazer diferente. Abrir um blog não custa nada — principalmente se ignorarmos que o tempo sem remuneração do blogueiro talvez lhe complique a vida –; já gerar conteúdo é uma tarefa enorme e envolve equipe, rapidez, fontes que não estejam apenas telefonando para os jornalões; ou seja, é necessário dinheiro e a negação de um velho conceito brasileiro: o de que apenas a direita informa.

Penso que haja dois caminhos: o da geração de notícias – caríssimo – e o da pesquisa e opinião – muitíssimo trabalhoso. Onde labuto, na redação do brioso Sul21, lutamos diariamente pelos dois. Mas há ainda mais a fazer, é preciso regular o discurso a fim de não falar apenas com a esquerda. Se não temos a pretensão de conquistar a direita – da qual sempre conseguimos a aderência (melhor dizer “perseguição”?) de alguns trolls – , é preciso dialogar com esta área pastosa e incompreensível para tantos de nós: o centro.

Sim, o centro. Nada de comer por quaisquer beiradas, o negócio é conquistar de vez o centro que, dizem, é quente, mas detém 40% do bolo e é formado de gente flutuante, daquelas que achamos que podem mudar de opinião a qualquer marola. O mesmo centro que passou a eleição passada ouvindo o PIG e nossa algaravia contrária. Sim, vencemos e acredito que tenhamos vencido porque soubemos rebater e ridicularizar toda tentativa de distorção da “grande imprensa”. Disformes e heterogêneos, éramos tantas vozes que conseguimos, acredito, aparecer com uma credibilidade que só a confusão e a agressividade tosca de uma Veja ou de uma Folha conseguiu nos dar. O PIG esqueceu que o centro não gosta de gente que berra ou que pensa deter toda a verdade. E o centro acabou apaixonando-se por um homem cheio de humanidade que nunca esquece de dizer o quanto ele próprio pode ser equivocado.

Todavia, nada disso me convence de que nossa posição reativa seja a correta. O debate trazido pelo PIG é débil. Acho que é importante seguir nosso esquema de marcação (é fácil jogar de volante), mas temos também que propor, tocar a bola, gerar conteúdo nosso, pensado do nosso jeito e não apenas nas salas do governo. As novas mídias estão aí e há espaço de sobra para veículos ágeis que tragam as novidades de uma nova forma, sem distorções ou com outros vícios, desta vez os nossos.

Não sei quão estropiado sairá o marco regulador das comunicações do Ministro Paulo Bernardo que, aliás, já deu sinais de que não se interessará muito pelos jornais impressos. Talvez o Ministro saiba que os jornalões só perdem leitores, mas, meu caro Bernardo, eles ainda pautam todos os órgãos. Quem é jornalista sabe o quanto. Eu acho que esse é o desafio da imprensa nos próximos anos. O de criar veículos influentes (nosso somatório já é), de credibilidade (nosso somatório já é), que elevem o noticiário e a discussão ao ponto de encher o PIG de tantos furos que os faça correr atrás do nosso saque (pois isso efetivamente não temos).

*Milton Ribeiro é jornalista e seu blog mantém há oito anos sete leitores

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6 Respostas para “Geração de conteúdo”

  1. luizmullerpt 21 janeiro 2011 às 3:48 pm #

    Concordo. Por isto o papel de um Encontro como dos Blogueiros Gaúchos, nos dias 1º, 2 e 3 de abril pode ajudar a enxergar melhor qual é o bom caminho para tratarmos a questão do PIG. Mas quando falamos em Blogs não estamos falando apenas em informação, mas também em espaço de debate e construção de idéias.Só com mais debate é que vamos fazer o PT compreender que a ele, partido político dirigente, cabe ir muito além da mera elaboração de políticas públicas para a erradicação da miséria, um papel fundamental do governo, neste caso do PT, que gere a nação. É preciso avançar para superar a fase da dependência de maiorias parlamentares construídas pelo toma lá, da cá de cargos e benesses. O PT precisa propor uma Constituinte Exclusiva que faça a Reforma Política. Com o congresso que aí está, não haverá a aplicação das resoluções da Confecon e tampouco a Reforma Política, Tributária e s outras reformas necessárias acontecerão a contento. Se há toda esta unidade “reativa” em combater o PIG, há sim a possibilidade de propor debates que ajudem a política a avançar. Mas aí temos que definir prioridades, senão cada um continua apostando na sua prioridade. Na minha modesta opinião, a Reforma Política Através de uma constituinte exclusiva é que deve ser prioridade.Mas se conseguirem me convencer de que outra antes desta, com certeza farei o bom debate para defender esta outra.
    Abraço

  2. Walter Souza 24 janeiro 2011 às 1:43 pm #

    Uma coisa interessante que há em Portugal é a distribuição lvire de jornais. Já se tentou por varias vezes fazer distribuição de revistinhas culturais em POA, mas não parece que houve muito resultado.
    No caso de jornais, há mesmo o Metro e o Diário Econômica, ambos de grande distribuição (sempre estão em todos onibus, metrô, universidades…). E que acredito que seja uma alternativa para as corporações tradicionais. Ainda mais que há grande explosão de jornalistas-blogueiros competentes em Porto Alegre e acredito que tenha potencial.

  3. Atilio 26 janeiro 2011 às 5:52 pm #

    Milton, boa reflexão. Pra tentar contribuir: acho que um dos problemas do Sul 21 é se deter nas informações e debates pautados pelos partidos, seja de esquerda ou não. Não seria necessário, por assim dizer, ir às bases? Associações de moradores, ONGs, massas críticas, sindicatos, comunidades quilombolas etc? Ali pulsa a contradição. Enfim, estou aqui “pensando alto”. Abraço.

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    [...] Geração de conteúdo (via Jornalismo B) Publicado janeiro 21, 2011 r Uncategorized Deixar um Comentário O post a seguir é uma colaboração especial de Milton Ribeiro* A esquerda tem os melhores escritores, os maiores artistas, os mais renomados cientistas sociais, os mais influentes historiadores, enfim, produz os mais importantes bens culturais de nosso tempo, mas não tem um grande jornal gerador de notícias, um daqueles que paute a mídia. Fui muito rápido? Então vamos por partes. Moro em Porto Alegre. Tenho 53 anos. Então, a maior parte da minha v … Read More [...]

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