O artigo a seguir é uma colaboração especial de Rodrigo Cardia*
Os clubes do eixo Rio – São Paulo monopolizam as transmissões de futebol por terem maior torcida, ou têm maior torcida por monopolizarem as transmissões de futebol?
No último final de semana, teve início a maior parte dos campeonatos estaduais no Brasil. Em termos de qualidade técnica, eles deixam muito a desejar. Ainda mais se levarmos em conta sua longa duração em Estados com clubes de maior tradição, que disputam as Séries A e B do Campeonato Brasileiro – competição que poderia ter início mais cedo, com menos jogos durante a semana, poupando os atletas de maior desgaste.
O que justifica a manutenção dos campeonatos estaduais atualmente? Podemos citar vários motivos. Mas um dos principais é a possibilidade de se ver os principais clubes dos Estados (que geralmente são das capitais) jogando em cidades do interior – o que dificilmente aconteceria se não existissem os estaduais. Um outro bom motivo, é a maior exposição midiática dos clubes locais. Afinal, só durante o Campeonato Gaúcho (por exemplo) é possível assistir a vários jogos de Grêmio ou Internacional na televisão aberta (pois no Brasileirão a “preferência” da televisão é pelos clubes do eixo Rio-São Paulo), assim como de clubes do interior, que têm nos estaduais a única chance de “aparecerem na TV”.
Porém, engana-se quem pensa que em todo o Brasil o torcedor pode assistir aos jogos do clube de seu Estado pelo menos nos campeonatos estaduais. Basta uma olhada no “mapa dos estaduais” que a Rede Globo disponibiliza em sua página, para perceber que apenas dez das 27 unidades da federação têm seus campeonatos transmitidos pela principal emissora do país.
E o pior nem é isso. Dos dez estaduais transmitidos, oito são apenas para os Estados aos quais correspondem (Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, Minas Gerais, Goiás, Bahia, Pernambuco e Ceará). Os outros dois campeonatos (Campeonatos Paulista e Carioca) são transmitidos não só para São Paulo e Rio de Janeiro, como para vários outros Estados. Ou seja, o torcedor do Paysandu – que costuma lotar o Mangueirão em Belém – não pode ver seu time na Globo, pois tem jogo do Flamengo…
Por que tal absurdo? Vejamos o que diz a própria Globo: Os dez estaduais serão mostrados para seus respectivos estados. Os dois principais – Paulista e Carioca – também terão transmissão para lugares próximos e que tenham torcedores dos respectivos clubes.
A escolha de um clube de futebol para se torcer vai além da mera questão futebolística. Como diz Arlei Sander Damo, “torcer por um clube de futebol é participar ativamente da vida social, construindo identidades que extrapolam o indivíduo, a casa e a família”*. Assim, existem vários motivos pelos quais alguém escolhe um clube para torcer, mas basicamente ligados à questão da coletividade na qual esta pessoa está inserida.
Um deles é a presença de grande número de migrantes de outras regiões – como aconteceu com a “diáspora gaúcha” pelo oeste de Santa Catarina e do Paraná, além da região Centro-Oeste, que não só difundiu os costumes do Rio Grande do Sul por essas regiões, como também ajudou a aumentar o número de torcedores da dupla Gre-Nal fora do Estado.
Mas a mídia também tem forte influência sobre a escolha clubística. O que explica o fato de rio-grandinos como o meu falecido avô paterno terem sido torcedores de clubes cariocas (ele era flamenguista): à noite era fácil sintonizar as rádios do Rio de Janeiro, devido à proximidade com o mar. Afinal, um clube que tinha seus jogos transmitidos pelas rádios da então capital nacional era considerado como mais importante do que aquele que se limita às páginas de um jornal de uma cidade menor.
O papel que antes era exercido pelo rádio hoje cabe à televisão. Aí voltamos ao “mapa dos estaduais” da Globo: os campeonatos paulista e carioca são transmitidos para várias partes do Brasil porque os clubes de São Paulo e Rio têm muitos torcedores fora de seus Estados. Mas, será que o grande número de, por exemplo, flamenguistas no Amazonas, não se deve também ao fato de que os torcedores locais não poderem assistir aos jogos dos clubes amazonenses na televisão? (Vale lembrar que em Manaus será erguido um estádio novo para a Copa do Mundo de 2014… Que obviamente virará um “elefante branco”, já que a maioria dos manauenses torce por clubes de outros Estados.)
Aliás, para sermos honestos, o mesmo raciocínio serve para o interior do Rio Grande do Sul: como a transmissão do Gauchão prioriza os jogos da dupla Gre-Nal, são poucos os clubes de fora de Porto Alegre que têm torcidas significativas – e mesmo na capital, o São José continua a ser um “clube de bairro” depois de quase 100 anos de história, e o Cruzeiro irá se mudar para Cachoeirinha.
E também explica por que muitos esportes não conseguem se desenvolver no Brasil: por não terem maior visibilidade midiática, os praticantes não conseguem patrocínio. E como o futebol (masculino) “dá mais audiência”, os anunciantes optam por ele, emperrando o crescimento de outras modalidades, inclusive nas quais o país tem potencial para ser vitorioso.
*Rodrigo é historiador, autor do blog Cão Uivador.
Tags:Brasil, Campeonatos Estaduais, Corinthians, Flamengo, futebol, futebol brasileiro, Rede Globo, Tv Globo







Sou torcedora do spfc, não apenas por residir na cidade de sp, mas porque minha família já era e é spfc.
Como admiradora do futebol, assisto também jogos de outros clubes, de qualquer clube, de qualquer série, seja feminino ou masculino – mas como já disse torço para o spfc e cada torcedor sofre no coração por qual clube tem simpatia ou amor, aliás não há apenas torcedor de clube mas também torcedor de jogador.
Quanto à globo, notei que voce opta por ela como referência; na minha opinião voce deveria colocá-la na “geladeira” – eu não sou telespectadora da globo e nunca fui – e ter como referência consumidores e telespectadores que possuem independência para escolher seus produtos preferidos; além disso, nestes anos de governo Lula, surgiu uma classe de pessoas, e jovens, que não se apegam à produtos de marcas com “tradição” quaisquer que sejam eles, e sim que ofereçam qualidade, ainda mais pela força da internet.
Caro Rodrigo Cardia.
Concordo com a sua opinião, e gostaria de expor outra vista.
Sou pernambucano, mas morei mais na Paraíba e no Rio Grande do Norte do que em Pernambuco. Sou torcedor do Sport Recife, e em Pernambuco há um nativismo aonde meninos não torcedores de clubes pernambucanos são tratados como estrangeiros.
Mas na Paraíba e no Rio Grande do Norte, estrangeiros são aqueles que torcem pelos times regionais.
Sempre pela questão da rádio, da tevê, os apelos regionais sempre foram menores.
A questão central, é que a maneira que se criou o padrão globo de televisão, priorizou uma homogeneidade inconsistente. O Brasil precisa vigorara os seus grotões.
Precisa de respaldo regional.
O Problema são políticas de concentração. No dia que existirem campeonatos regionais, os eixos serão desestabilizados. O que precisamos é de regionais.
concordando com o artigo,quero acrescentar q esse monopolio tambem permite que os “diretores de imagens” transmitam somente “detalhes” e não o jogo.São somente “apertadores de botões”. E não temos opção de outros canais.Já ví a “experiência de tramissão de um jogo do ponto de vista do juiz e auxiliares. Esse tal de sportv vive “testando hióteses”
Parceiro,
Gostei principalmente do penúltimo parágrafo. SOu um torcedor misto (o time da minha cidade, interior da Bahia e outro de fora, o São Paulo), mas me ressinto muito da atitude dos torcedores dos clubes da capital. Toda essa chiadeira em relação à excessiva concentração nos “times do eixo”, bla, bla, etc só vai até a página 2. No âmbito estadual, os times menores são desprestigiados, desconsiderados, humilhados, etc. A isca nacional é um tubarão regional.
Eu acho que é para isso que existe o Estado, o Governo.
Já vi o Trajano afirmar que a ESPN Brasil transmite outros esportes na raça, porque não tem público algum para eles.
Deveriam usar a TV Brasil, a TVE, a Rede Nacional para isso. E também para a transmissão de futebol do interior.
Seria demais querer que a Globo ou a Record trocassem o Flamengo pelo Payssandu. Eu não gosto da Globo, mas não sou inocente de imaginar que ela é uma instituição de caridade.
O sonho do PIG (partido da imprensa gambá) é transformar o o Brasil em um país como a Espanha. Ou seja, com apenas dois times grandes, curintia e flamengo. Para as tevês sai muito mais barato exportar o futebol dos grandes centros para todo o Brasil do que investir no futebol regional.
Acontece que televisão, no Brasil, é concessão pública e deveria ter critérios mais esportivos e mais obrigações com as culturas e esportes nas regiões em que transmitem seu sinal.
No caso do futebol, os times tem o direito de ver suas torcidas crescerem em função da visibilidade obtida pela qualidade dentro de campo. Para isso, os regionais são fundamentais e deveriam fazer parte de um pacote de obrigações a serem cumpridas pela emissoras de tevê.
Adorei o post, pois é de uma grande relevância e urgência.Proponho um movimento, com faixas nos estádios, a partir das torcidas organizadas, contra essa imposição do “eixo do mal” contra o resto do País. A concentração das redes de TV, abertas e fechadas, no Rio e em SP é que causa essa forma de mostrar o país. E não é só no esporte, é na música, no cinema, na teledramaturgia, no jornalismo, etc. que se dá valor muito maior ao “eixo”. Alguém aí em cima citou o Trajano, para mim um dos mais arrogantes e colonizadores “jornalistas” esportivos. Ele até corta quando alguém está falando de um time de outro estado. Por isso chamo a Espn Brasil de Espn-SP.
Oi, gente.
Quando o assunto é solidariedade, todas as torcidas estão de mãos dadas pela reconstrução das cidades afetadas pelas chuvas na Região Serrana. O vice-governador e secretário de Obras, Luiz Fernando Pezão, reuniu-se essa manhã (26) com o presidente do Botafogo Futebol e Regatas para definir um jogo cuja renda será revertida para obra de recuperação da cidade.
O jogo será em fevereiro no campo do Friburguense Atlético Clube e reunirá os quatro grandes clubes cariocas. A partida será entre um time misto do Botafogo e Vasco, contra outro que reunirá os profissionais de Flamengo e Fluminense.
http://bit.ly/i37NKz