Dois lados

Este artigo é uma colaboração de Douglas Skrotzky *

Lado. Mesmo os covardes e até mesmo os mais mal intencionados optam por um lado. Posicionamento, eu sei, amigo leitor, sempre existe, mas nem todas as vezes é explícito e transparente. Resolvi falar de lados hoje pois há pouco mais de dez dias um fato vem interferindo de alguma forma na vida da sociedade brasileira e parece, misteriosamente, que a imprensa nacional não se interessa em divulgar, colocar às vistas da população.

Os grandes meios de comunicação impressa ou eletrônica deste país, impregnados de corporativismo e ligados a pressões e interesses que vão além de nossa compreensão, de meros mortais, se calam e emudecem frente a certos assuntos. Para ficar mais claro, revelo a fonte de minha inquietação atual: a greve nacional dos bancários.

Como disse, não há problema em ter lado. O problema é esconder esse lado e, pior ainda, fingir que não pertence ao seu verdadeiro lado. É sabido de longa data que os banqueiros são grandes patrocinadores e anunciantes dos veículos de imprensa no Brasil. Essa prática atual de misturar jornalismo, com seus princípios de ética e moral, com o mundo dos negócios, que, se não desrespeita tais princípios, age quase sempre no limite do desrespeito, maculam o trabalho dos homens e mulheres jornalistas. Cifras norteiam a prática da imprensa. Colegas jornalistas, algumas vezes, pressionados, jogam sujo, muito sujo. A greve nos bancos é exemplo disso.

Tenho participado das assembleias do Banrisul, o banco do Estado do RS. O sindicato dos bancários, que acompanha diariamente o que sai na imprensa sobre o assunto, frequentemente se queixa da cobertura do tema. De fato, é uma vergonha o que vemos hoje. É raro, para não dizer quase impossível, encontrarmos matérias que focam a visão de quem faz a greve, com seus motivos e argumentações. O que sempre é veiculado é a distorção da situação. Publicam sempre a questão pelo lado das filas e atendimento precário nas agências bancárias e lotéricas. É uma prática seguida de colocar a população, que certamente sente os efeitos da paralisação, contra o movimento de greve. Fica como se quem fizesse a greve não fosse sensível aos problemas e efeitos causados pelo movimento.

A verdade, se não for muita pretensão minha falar em verdade, é que se inverteram os papeis. Estou errado ou é o melhor negócio do mundo ser banqueiro neste país? Lucros astronômicos e ofertas de juros que beiram o absurdo, pelo lado dos bancos, e, na contra-partida, vemos funcionários dessas instituições pressionados de forma cada vez mais forte e ganhando cada vez menos. A grande maioria da categoria vive com o piso salarial de R$ 1074,00 , mais alguns benefícios. Como essas pessoas têm condições de se preparar intelectualmente, vestir-se adequadamente, atender com a qualidade que o banco exige e manter uma família com pouco mais de R$ 1 mil? Não dá.

Esse texto, além de crítica à postura da imprensa, é um apelo. É uma tentativa de mostrar que os bancários são os operários. Quem explora (e explora muito) é que precisa, se for o caso, ser mal visto. É um absurdo ver pessoas lutando democraticamente e dentro das leis pelos direitos e por melhores condições de trabalho serem alvo de hostilidade da população.

A imprensa é uma das grandes responsáveis por esse sentimento nas ruas. Eu não consigo acreditar que veículos como os do Grupo RBS ignoram quase que por completo uma paralisação pelo menos parcial, já que comissionados em geral não fazem greve, de mais de 320 agências do Banrisul. E com os demais funcionários dos outros bancos a situação é semelhante.  É muita cara de pau a atuação desses veículos em temas que de alguma forma interferem em cifras e interesses. Coincidência ou não, a maioria esmagadora das matérias sobre o tema focam na Fenaban, a Federação Nacional dos Bancos, pró-banqueiros.

Amigo leitor, me esforcei para não fazer deste desabafo um texto propagandista da greve, pois não é. Evidentemente que sou simpático ao movimento, mas trago aqui uma tentativa de mostrar para quem leu que existe um mundo que a imprensa brasileira teima em esconder. Quem tem curiosidade pode, para efeito de consulta, visitar sites de sindicatos, por exemplo. Lógico que nesses locais encontraremos informações bastante focadas nos grevistas, já que é uma parte interessada. Mas mesmo assim é mais uma dentre muitas fontes de informação. Enfim, se a imprensa brasileira esconde o seu verdadeiro lado, cabe a nós tirarmos a máscara que cobre a face dos veículos de comunicação. Eu já escolhi meu lado, que é o da transparência. Você já escolheu o seu?

* Douglas Skrotzky é jornalista

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Sobre Alexandre Haubrich

Jornalista, estudante de Ciências Sociais na UFRGS
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8 respostas para Dois lados

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  2. Luís CPPrudente disse:

    Os meios de comunicação do mafioso PIG daqui a alguns dias, vão dizer que greve não é um direito dos trabalhadores, que greve é ilegal e contra os direitos sociais. Mas estes bandidos fogem de discutir os lucros abusivos dos banqueiros que até hoje no Governo Lula ocorre.

    Uma das críticas que faço do Governo Lula é ele continuar a mesma política financeira de FHC, que privilegia a concentração da riqueza nas mãos dos banqueiros, estes por sua vez estão cada vez mais ricos e não aceitam dividir poucos trocados com os seus trabalhadores.

    A imprensa do PIG, como foi falado, é parcial e está sempre contra os trabalhadores. O Governo Dilma tem que acertar em cheio essa imprensa do PIG com a nossa “Ley de Medios”, que obrigará os mafiosos do PIG a darem ouvido, espaço e vez para os dois lados da questão. Por enquanto só existe os lados dos dominantes no meio de comunicação do PIG.

  3. Pingback: Sul 21 » Dois lados

  4. Alberto Mario da Rosa disse:

    Quantos milhões de reais os bancos gastam em publicidade para Televisão (vamos ficar apenas com televisão)?
    Quantos reais os sindicatos dos bancários gastam em publicidade para Televisão?

    Imprensa no Brasil é assim. Defende-se/Mostra-se o lado dos anunciantes que pagam mais. Simples.

    Forte abraço.

  5. Wesley Kuhn disse:

    Esse tratamento da grande mídia sobre as greves é feito sistematicamente. O fato é que a imprensa está sempre do lado de quem a financia e, por isso, nem está aí para as questões sociais. E esses órgãos, que defendem o interesse do empresariado, tem coragem de falar em liberdade de expressão enquanto fazem o maior atentado à democracia que é a aversão à pluralidade. Por isso é central o papel dos meios contra-hegemônicos para revelar esse ódio à democracia de um setor que se diz democrático

  6. Pingback: Dois lados

  7. self_liar disse:

    Como sempre digo ,televisão privada não tem solução .Ela vai ficar sempre do lado dos anunciantes. Se ela não ficar ,ela perde o anunciante. É como sempre , o capitalismo sempre pede mais e mais lucros ,as empresas de comunicação também seguem essa regra e sempre vendem a alma para os anunciantes para sempre ter mais e mais lucros.

    Publicidade é um abuso.É forçar através da repetição ,da hipnose,do status que as pessoas devem comprar ou fazer algo. Propaganda existe por causa do lucro .Se o lucro não existe ,então propaganda não existe.

    A solução para uma mídia de qualidade é o conteúdo público (tv ,internet ,rádio e etc). O conteúdo público não deve ter anunciantes e assim não terá tendencias ruins. Claro pode ter o estado,mas o estado se for justo não ficará preso as corporações.

    Coisa que o José Serra não é.

  8. laura disse:

    Gostei das tuas primeiras linhas. Vou postar no meu blog: http://lauramertenpeixoto.blogspot.com/

    abraço

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