A Folha de S. Paulo trouxe, na edição do último domingo (30/05), um caderno especial intitulado “Futebol e racismo no Brasil”. Em oito páginas, a preocupação com o tratamento de um tema tão delicado e o grande acerto na escolha das pautas empolga o leitor. A leitura dos textos, porém, traz algumas decepções.
A primeira matéria – de Plínio Fraga – traz algumas histórias que exemplificam problemas de racismo no futebol brasileiro. Elas partem da melhor das boas pautas abordadas no caderno: a comparação entre Bahia e Santa Catarina – respectivamente os estados com mais e menos negros no Brasil – na questão do negro no futebol. O problema é que as histórias são largamente conhecidas e não chegam a causar reação. A divulgação já massiva dessas histórias – como a do atacante Grafite (ex São Paulo) e do zagueiro Manoel (Atlético-PR) –, além do entendimento popular desses jogadores-celebridades como super heróis, esvazia a discussão. O texto principal, como as retrancas, é claro e bem montado, mas falta o impacto.
Depois, um texto – de José Paulo Florenzano – com mais fontes sociológicas aborda a questão da dificuldade em se encontrar treinadores negros nos grandes clubes brasileiros. Traz uma visão que poderia permear todas as matérias, a visão da sociologia, a percepção da sociedade como um todo. Porém, novamente falta o elemento do choque. Na página ao lado, entrevista com Sissi, ex jogadora da Seleção Brasileira. Essa entrevista é, claramente, uma pauta que poderia perfeitamente ter caído, pois não deu certo. Acabou-se falando mais do preconceito contra as mulheres no futebol e a diferença entre como as jogadoras são tratadas no Brasil e nos EUA.
As duas reportagens seguintes, “Los macaquitos” e “O amor que não vê a cor”, caem em simplificações e deixam de lado qualquer tentativa de aprofundamento. A segunda se contradiz, ao afirmar, na linha de apoio, que “futebol é um dos únicos espaços em que a questão racial não importa para as relações afetivas” para, em seguida, mostrar a obviedade: importa, sim. Já a primeira, “Los macaquitos”, foge do que se propõe o caderno, falando da situação do racismo no futebol europeu. Mas não é esse o ponto principal. O texto esquece de fazer conexões as mais óbvias, como a relação das ações racistas de torcedores europeus com o fascismo, sempre forte em algumas torcidas daquelas paragens.
O caderno todo – e essa é minha principal crítica – esquece de fazer algumas das conexões mais óbvias. Deixa de lado as raízes históricas do problema do racismo no Brasil, assim como passa muito rapidamente pelas questões de mestiçagem e como elas influenciam no imaginário nacional. Também não aprofunda as motivações sociais do futebol e limita a uma espécie de racismo consciente atitudes de torcedores, atitudes que costumam passar por pontos muito mais complexos.
A entrevista com o ex jogador Paulo César Caju é a melhor matéria do caderno. Caju não mede as palavras, é politizado, crítico e enfático no que defende. As perguntas dão a abertura certa para o entrevistado falar, tocam nos pontos mais importantes que o ex jogador tem para abordar sobre o tema. Muito bem conduzida, e a amostra mais bem construída, no caderno especial, do problema do racismo no futebol brasileiro.
As pautas discutidas foram grandes sacadas, e a tentativa de dividir entre análises mais jornalísticas ou predominantemente sociológicas também. Faltou a capacidade de chocar com um assunto que tem o dever de agredir. Faltou o aprofundamento que, em um caderno com oito páginas para tratar de um mesmo assunto, era obrigação. Faltou fugir do futebol profissional e lembrar que o preconceito também está presente no futebol amador, nas várzeas, nas ruas.
Postado por Alexandre Haubrich







mande para mim a entrevista da ex jogadora sissi!!