Todo professor (bem, todo o ser humano) tem as suas idiossincrasias, ou, falando gentilmente, as suas preferências. A minha é o Claudio Abramo. Quem foi meu aluno sabe que sempre tentei enfiar um texto do Abramo onde dava no programa, às vezes de forma meio esquizofrênica.
Não é nem por causa da importância do Abramo no jornalismo brasileiro, pelo fato de ter participado de reformas que foram cruciais como a do Estadão e a da Folha. Mas sim talvez pela sua visão incisiva, inteligente e, ao mesmo tempo, desapaixonada do jornalismo. “O jornalismo é um meio de ganhar a vida, um trabalho como outro qualquer; é uma maneira de viver, não é nenhuma cruzada”. Esta, eu assino embaixo.
Mas outras, não. E a relação com os autores que gostamos tem de ser assim, acho. A gente não pode concordar com tudo o tempo todo. O autor é uma figura que nos faz crescer, que levanta pontos que desperta a nossa atenção e a nossa crítica. Não pode ser um ídolo, um guru. Prefiro gente que me incomode que alguém para venerar.
Todo este lero-lero é porque ontem me lembrei muito do texto vulgarmente conhecido como “A ética do marceneiro” (e que na verdade não tem nome), que está no livro “A regra do jogo”, do Abramo. Talvez porque fui assistir ao Mino Carta no Encontros com o Professor, do Ruy Ostermann. O Mino falou do Abramo (“um irmão”) e eu planejava perguntar, mas não perguntei, sobre a sua posição em relação à noção de ética jornalística defendida pelo Abramo no texto.
Resumindo para quem não conhece (IMPERDOÁVEL!!), o Abramo diz que a ética do jornalismo é como a ética do marceneiro. “Não existe ética específica do jornalista: sua ética é a mesma do cidadão”. E mais adiante: “O limite do jornalista é o limite do cidadão”.
Bom, tem várias discussões em teoria do jornalismo ou teoria da comunicação sobre ética e algumas sobre este texto. Peço desculpas, mas desconheço-as, pois o que sei de jornalismo é muito mais prático que teórico. Mas sempre fiquei encasquetada com esta definição do Abramo. Como assim, “ética do cidadão”? Porque, acho eu, o jornalista não é um cidadão comum. O jornalista tem privilégios que um cidadão não tem. Ele tem acesso – e favores – que um cidadão comum não tem. Ele entra em locais e faz coisas que o cidadão comum não pode. Ele sabe de coisas que o cidadão comum não sabe. E aí?
Pois ontem eu estava lá, na fila de quem chegou atrasado para ver o papo do Ostermann com o Mino. Fiquei esperando do lado de fora, junto com uma dúzia de retardatários como eu (gente que chegou em cima do horario). Foi uma boa hora e meia de banco até entrar e assistir às últimas três perguntas da platéia.
Todos nós que esperávamos éramos infames – me aproveito da palavra usada por Foucault. Ou seja, além de atrasados, não éramos ilustres. Muitos jornalistas amigos meus, caras conhecidas, alguns a trabalho, outros não, chegaram depois e entraram antes, sem esperar. De carteiraço. Alguns por amizade, outros porque tem poder para escrever e divulgar o evento. Tudo bem. São as regras do jogo.
O mais engraçado foi um casalzinho de infames que estava atrás de mim na fila e que, sabe-se lá como, conseguiu, já no final da espera, trocar o seu número da senha de entrada (sim, a espera era organizada!) por um mais baixo. Reparei neles. Casalzinho novo, jornalistas ainda desconhecidos, a carreira começando, cheios de gás, ambição e alguma insegurança disfarçada em oportunismo.
Fiquei pensando: o que os difere dos outros, nos quais o hábito de passar à frente dos infames, de sobressair-se nas multidões, de passar a perna nos colegas e nos cidadãos comuns se torna às vezes necessidade imperiosa da profissão? Todo jornalista já precisou entrar por portas restritas aos reles mortais, já negou informações a colegas, já empurrou cidadãos que faziam filas ordeiras porque precisava fazer a matéria, chegar antes, escrever rápido, encontrar as fontes. Eu mesmo já fiz isto várias vezes. Quando é que isto se torna hábito? Quando é que isto começa a impregnar a alma e a máscara de jornalista não desprega mais da face de carne e osso?
Qual é ética possível aos jornalistas? Talvez fosse esta a pergunta que eu faria ao Mino Carta. De minha parte, estou cada vez menos jornalista. Me resignei ao meu número de chamada, e entrei quase por último. Talvez por mera covardia, não reclamei de ser passada para trás pelo casalzinho desonesto. Mas a razão não importa muito. Posso gabar-me: fui honesta. Como já escreveu Machado de Assis, “há dessas virtudes feitas de acanho e timidez, e nem por isso menos lucrativas, moralmente falando”.
Artigo de Clarice Speranza







Ótimo texto, parabéns. Só um problema: a foto no início do texto não é de Cláudio Abramo e sim de seu filho, Cláudio Weber Abramo, da Transparência Brasil.
Obrigado, Maria Luiza, já resolvemos o problema.
Eu não vou divagar em cima das reflexões porque já divageui sobre isso no meu próprio blog. Mas quero dizer que o texto traduz todo um sentimento que tem se feito presente em mim e em algumas pessoas que conheço, questionando condutas, limites, atuação, tratamento, valor. Essencialmenet valor, nos diversos aspectos que ele pode alcançar. Ótimo texto. Ótima reflexão, perfeitamente colocada. Passo a passo.
Clarice,
Você faz muita falta na redação.
Um abraço
PS:
Ótimo texto.
Não estou dizendo que o que rola é algo natural e normal. Mas acontece que, como o que move os grandes grupos e respectivos veículos é a ética do urubu neoliberal, esta é a ética, por extensão, que ameaça o jornalismo. Ameaça ou seduz, tanto faz. O fato é que, uma vez fora do jogo, não há como pensar em disputá-lo. Ou se é um outsider, ou se entra de cabeça. A ameaça está aí: faz sentido permanecer no último lugar na fila, quando todas as outras pessoas se dedicam apaixonadamente a furá-la? Será um perigo ficarmos em cima do muro, compactuando; teremos alguns problemas para dormir à noite mas, enfim, receberemos algum para que possamos almoçar, pagar prestação, beber nos lugares chiques que os colegas urubus frequentam… Tentar se manter “por cima” é uma forma de legitimar o jogo, porém. Agora, isso não é uma realidade muito diferente de outras profissões. O Jornalista não-urubu tem de buscar sua liberdade, num sustento que lhe dê mais autonomia. Por incrível que pareça, a universidade pública parece ser um dos caminhos – em qeu pese sua neutralidade institucional, que pra suportar isso a gente também tem que ter sangue de barata. É uma tensão muito menor do que trabalhar, como dizem, nas firmas afora…
Boa discussão, abraços
Ótimo texto. Gostaria de saber a opinião (sincera) desta jornalista sobre a ética dos empresários de comunicação. Por exemplo, uma empresa que desrespeita a legislação, concentrando ilegalmente dezenas de órgãos, como rádios, tvs, jornais, e dominando a mídia quase que completamente. Faz isso com tal poder e com tanta maestria que quase ninguém tem coragem de enfrentá-la. Utiliza sua influência para eleger amigos e destruir a reputação dos inimigos e/ou adversários, manipula notícias com objetivo de desvalorizar/valorizar imóveis para depois vendê-los/comprá-los.