Não é a primeira vez, eu sei, mas não é por isso que vamos deixar de insistir, muito pelo contrário. De novo e de novo, a Zero Hora insiste em afirmar – nas entrelinhas ou direto nas linhas mesmo – que os movimentos sociais são criminosos. Usa diversos recursos pra fazer isso. A edição de hoje, infelizmente, está cheia deles.
Comecemos pela capa. “Vandalismo” é a cartola da chamada “Baderna na Assembleia”, que vem acompanhada do texto “Sindicalistas e estudantes mancharam paredes e quebraram equipamentos”. No mesmo quadro, a chamada para a outra matéria, “Por que sede do Incra virou terra sem dono”. São duas matérias diferentes, que envolvem sujeitos diferentes em situações distintas, mas estão juntas, suponho que porque ambas tratem de crimes cometidos por movimentos sociais. Cumprem o mesmo objetivo de criminalizar os que lutam contra o status quo.

Páginas 4 e 5, Reportagem Especial. Cartola: “Assembleia atacada”. Título: “Os 40 minutos que violaram o parlamento”. A abertura da matéria é uma descrição de tudo de ruim que os manifestantes fizeram. Manchas, cartazes, protestos. Não há um só sinal de violência. Insisto, nenhum. Em seguida, o texto – não assinado – mostra que a manifestação nem era sobre a governadora, mas os “vândalos” estavam lá. Dá a entender que eles aproveitam qualquer brecha, usam outras situações, para cometer seus atos… hmm… violentos, suponho. Continua aqui e aqui.
Insistiu-se muito na liberdade de opinião, que não teria sido respeitada porque os manifestantes estavam pedindo a saída de Coffy Rodrigues da relatoria da CPI da Corrupção. Mas peraí, isso não é uma opinião? Uma opinião, inclusive, que permite outras contrárias, como foram tão expostas na Zero Hora? Alguma coisa não fecha. Sabe quando alguém critica nos outros aquilo que ele mais faz? Pois é. O contraponto, evidentemente, ficou para o finzinho do texto, poucas linhas, e só pra dizer que tinha. Deu-se muito destaque para a entrevista com Ivar Pavan, por legitimar a opinião do jornal e ainda poder dizer que foi a oposição que disse, que é coisa do PT. Foi também elogiado no editorial, página 14. Estratégias…
Página 8, ainda Reportagem Especial, já que, como já foi dito, o jornal incluiu todos os movimentos no mesmo guarda-chuva do crime. Cartola: “Invasões rotineiras”. Título: “Depredações ficam impunes”. É engraçado como eu ainda consigo me impressionar com a capacidade de escolher palavras preconceituosas para definir os movimentos sociais.
Aí só as duas palavras abaixo do título já dizem muito: Humberto Trezzi. É ele o autor do texto que tem o único e claro objetivo de criticar a não-condenação do MST por depredar a sede do Incra. Detalhe: isso ainda é só uma hipótese, não foi nem definido se vai haver condenação ou não. A descrição de casos antigos de “violências” semelhantes serve para legitimar essa posição de que os culpados devem ser responsabilizados. Culpados de quê, cara pálida? De exigir um direito que a Constituição garante, de Reforma Agrária, de distribuição da terra e da renda e que é roubado, aí sim criminalmente, todos os dias desses manifestantes e de tantos outros que não ousam falar nada. E a matéria inclui ainda uma nota nada a ver com o assunto só para lembrar que há um pedido de CPI contra o MST, os malvados.
Página 11. Cartola: “A roupa ideal”. Título: “Protesto engravatado”. Essa é um texto curto, no fim da página, só para o jornal não perder a oportunidade de ridicularizar a vereadora do PSOL Fernanda Melchiona. Ela e Sofia Cavedon, do PT, protestaram hoje contra a discussão fútil proposta por Nelcir Tessaro, do PTB, de que roupa se usar na Câmara de Vereadores. O protesto? Fernanda botou uma gravata!
O pior de tudo é a inversão realizada pela Zero Hora. Quem é a vítima da história? Segundo o jornal, a vítima é a Assembleia, que sabemos estar infestada pela corrupção. Segundo o jornal, os culpados são os estudantes, os movimentos sociais, os que apanham, os que lutam pela igualdade, as vítimas históricas do sistema. Permito-me agora fazer uma pausa e buscar apoio em um autor que admiro muito. Eduardo Galeano diz em seu livro De pernas pro ar: a história do mundo ao avesso: “O código moral do fim do milênio não condena a injustiça, condena o fracasso”. Fracassados são os movimentos sociais, que não enriqueceram, que são injustiçados. O código moral do fim do milênio é traduzido pela mídia. Infelizmente.
* Impossível não citar também o comentário da Zero Hora (assinado por Luciano Peres, editor de Mundo) depois de matéria sobre as medidas da presidente argentina Cristina Kirchner com relação à imprensa. Ler que “Chávez está fazendo escola” e que ele “trava uma guerra contra os setores da imprensa que não lhe são dóceis” chega a doer. Principalmente porque é mais uma visão monopolista de quem não quer nem que se discuta que tipo de jornalismo nós queremos. Quanto mais democratizar o acesso à informação e à produção da informação.
* Meus agradecimentos a Ale Lucchese pela sugestão de post.
Postado por Cris Rodrigues
Tags:Argentina, Assembleia, criminalização, Cristina Kirchner, movimentos sociais, MST, protesto, Reforma Agrária, Zero Hora







A arrogância dos veículos de comunicação mostra que os jornalistas esqueceram para quem trabalham. O chefe não é a população. O corporativismo cresce.
É preciso sempre denunciar esse descalabro, para anunciar que é possível fazer uma comunicação diferente.
Abraço!
Desculpa, mas roubar notebook não é crime? Vandalismo em prédio público não é crime? Corrupção na AL ou a não efetivação da Reforma Agrária não justifica esse tipo de ação. A vereadora do PSOL mostrou como é possível fazer protesto de forma inteligente. E, sinceramente, não acho que ela tenha sido ridicularizada.
sem contar “a escola de chaves” e “protesto engrava
tado” a zh fez uma chamada para reportagem especial
com 4 matérias sob o titulo principal:assembléia ata
cada.e mais 3 sob o titulo:invasões rotineiras.
sobre a CPI e o IMPEACHMENT os atenuantes de sempre.
sobre o lula que vai fazer uma obra sonhada pelos gauchos há muitos anos a zh disse que a visita iria
trancar o transito.do lixo só deu para aproveitar texto do verissimo,leitura que eu indico….agora fi
cou claro que a rbs estava por trás do promotor fas
cisthums que sonhava acabar com o MST e os movimen
tos sociais.o carequinha foi derrotado por meia du
zia de crianças,a rbs é mais complicado então os
blogs de esquerda devem fazer o combate(com o PIG
tem que ser guerra)as 24 horas do dia em cada para
grafo em cada linha…….
Sempre a mesma coisa. Se não me engano na Zero Hora de quarta em que falaram também do “vandalismo” no prédio do INCRA, a organização da página que eles dedicaram ao assunto foi lamentável.
No topo/centro havia a reportagem que inclusive comparava o pessoal do movimento com ladrões quando colocaram a opinião de alguém que presenciou a movimentação,lá embaixo da página uma propaganda enorme do colégio La Salle e bem no cantinho um quadradinho com o suposto direito de resposta do movimento, que na realidade nem consistia em um direito de resposta, visto que o jornal alegara que não foi possível estabelecer contato com os responsáveis.
Meu caros, apesar de estar em crise e ter um proprietário que não tá nem ai para o seu glorioso passado, eu ainda prefiro o centenário JB… acho o seu novo formato muito prático e fácil de ler, o JB é um PATRIMÔNIO não só do Rio mas do Brasil … e ainda estão lá jornalistas de peso… como Vilas-Boas Correa, Tales Faria, Mauro Santayana, etc. E na coberura de notícas locais, o JB está constantemente “furando ” o Globo.