Esse é mais um artigo da colaboradora Luiza Monteiro.
A Época nunca foi uma publicação que me chamou o interesse de forma particular, mas nos últimos tempos ela tem me rendido surpresas agradáveis que merecem destaque. Uma delas foi a matéria sobre adoção na edição anterior, e outra veio agora, com um “Especial Educação” composto de diversas reportagens.

Agora, o assunto da educação pública deficitária no Brasil não é novidade e, apesar de a discussão ser relevante e necessária, é bem raro ver uma matéria com conteúdo verdadeiramente interessante a respeito. A matéria A Escola Que os Jovens Merecem (disponível no site da Época apenas para assinantes) refresca o formato e a maneira de trabalhar o conteúdo.
Cinco alunos de escolas públicas de todo o Brasil prestam depoimento, na forma de diário, sobre seu cotidiano escolar, os dramas e pressões. A partir disso é que se tecem panoramas sobre questões essenciais como a evasão escolar, o vestibular, as dificuldades de comunicação entre aluno e professor, o medo da deriva após o fim do ensino médio, a ausência de infraestrutura e a defasagem entre os ensinos público e privado no país. Essa abordagem, de construção de um quadro social a partir da base- das pessoas que vivenciam as situações descritas na pele- e não a partir do topo- especialistas e tecnólogos- é uma das mais interessantes que se produz dentro do jornalismo como um todo, e creio ser uma na qual o jornalismo impresso tenha certa vantagem sobre as outras mídias (como nunca trabalhei com rádio ou TV, fique claro que falo aqui de um ponto de vista observador e amador).
As fotografias são lindas e merecem comentário à parte, porque amplificam (ainda mais) a rede social de alunos envolvida no trabalho e as conexões entre eles. A partir dos diários elaborados pelos cinco estudantes e que foram base para a matéria, foi pedido que um grupo de grafiteiros alunos de outro colégio público elaborassem, para cada relato, uma obra. Essas obras foram então fotografadas e receberam um belíssimo tratamento de cor que deixou as cercanias em preto-e-branco, valorizando o desenho. Ouso dizer que é uma das iniciativas mais interessantes que vi em fotografia para veículos de mídia nos últimos tempos.

É o tipo de linha de trabalho que não é para qualquer um. Exige uma inversão da lógica tradicional. Exige sensibilidade para evitar a superexploração ou julgamento da figura do povo. Exige um voto de confiança no público, a crença de que o leitor não quer só saber de gente célebre e renomada. E exige, claro, alguma liberdade editorial e um espaço razoável para publicação, porque é um trabalho que envolve muitas pessoas que merecem, cada uma, um pouco de divulgação de sua voz. Infelizmente, os veículos que tradicionalmente possuem recursos para investir em abordagens mais humana em suas reportagens raramente o fazem. As últimas duas edições da Época que eu acompanhei tem me chamado a atenção por darem uma bela refrescada nesse sentido, mas ainda é cedo pra celebrar demais.
Vamos ver se isso vai dar em alguma coisa, e esperar que no futuro cada vez mais as matérias - e as pessoas por trás delas – possam receber o tratamento que merecem.
Luiza Monteiro é estudante de Jornalismo da UFRGS.





Adorei, obrigado por deixar os alunos expressar o que realmente senti.