Não muito interessante

22 mai

Assinei a Superinteressante por muitos anos. Não sei se eu era muito nova e tinha problemas de discernimento ou se antes ela era melhor mesmo. Encerrei a assinatura em 2005. Já não faz tanto tempo, mas nessa época já fazia um tempinho que eu estava insatisfeita com o que era feito ali. Esse foi o ano que eu entrei na faculdade, e ainda mantive a revista por alguns meses, até finalmente decidir trocá-la pela Carta Capital – no que acho que fiz um bom negócio.

super dietasO fato é que agora decidi tirar a prova dos nove e comprei a edição de maio. O mês já está acabando, a edição de junho já deve estar quase saindo, mas não é essa edição em si que importa, mas o tipo de Jornalismo que é feito na revista, e esse não muda de mês a mês. Ela tem méritos, sim. O principal é o de traduzir um conhecimento científico para uma linguagem de mais fácil compreensão. Isso teoricamente é muito bom, pois leva determinado tipo de informação a quem não teria acesso a ele de outra forma. Democratiza o acesso a essa informação.

O problema é a informação em si. É importante ficar claro que o que a Super faz – ou deveria fazer – é Jornalismo, não ciência. Então o repórter não pode escolher um método científico não-comprovado e decidir que ele é o mais legal e dizer isso para os leitores como se já fosse unanimidade no mundo científico. Defende teorias sem nenhuma base.

Vou usar a edição de maio como exemplo pra facilitar. A matéria de capa é sobre dietas. Seu objetivo aparente é desmistificar aqueles mitos todos que envolvem o tema e que fazem surgir dezenas de publicações que não emagrecem ninguém, mas engordam o bolso de editoras e autores. Visto dessa forma, parece bacana, a ideia é levar uma informação mais aprofundada sobre o tema. Mas o fato é que a revista só desmistifica esses mitos todos para valorizar o mito que ela escolheu ser o melhor: o de que não importa o tipo de comida ingerida, para emagrecer o importante é contar o número de calorias. Não importa se a pessoa come um brigadeiro ou uma maçã. É uma pesquisa de Harvard, é fato, mas não é, definitivamente, uma unanimidade. Além disso, é contraditória, quer mostrar que emagrecer é quase impossível, que as pessoas não precisam se preocupar com isso, ao mesmo tempo em que exalta o resultado de um corpo esbelto. Em suma, tenta dizer o que o leitor quer ler, mas se contradiz o tempo todo.

O layout da revista é interessante, leve, atrai o leitor, dá vontade de ler até o fim – só até descobrirmos os problemas, daí a vontade passa. Além disso, tem infográficos reconhecidos mundo afora, que contribuem para a compreensão de assuntos mais espinhosos. Mas isso não adianta se o objetivo da publicação e os textos que ela imprime não satisfazem.

Há seções sem nenhum sentido, como a “Conexões”, que procura ligar um assunto a outro que não tem nada a ver com ele por meio de manipulação das informações. Tem matérias inúteis – como ensinar como manipular pessoas -, tem matérias completamente vazias, que não dizem absolutamente nada. Aquela seção “E se…”, que discorre sobre uma situação hipótetica sobre determinado assunto no caso de não ter havido algum acontecimento histórico, inventa a história, muda seu rumo, e é também inútil.

super globoNão me lembro exatamente como a revista era antes de sua reformulação, que aconteceu em junho de 2005. Lembro que essa seção “Conexões”, por exemplo, surgiu nessa época. Mas o que eu gostaria mesmo de destacar é que a reformulação da Super “coincidiu” com a capa sobre a Globo. Em junho de 2005, a Globo fez 40 anos. Bem nessa mês, a Super ficou mais bonita, mais atraente, e a capa era o símbolo da emissora mais poderosa do país. Coincidência?

super maconhaIsso tudo sem contar aquelas capas clásssicas da Super. De tempos em tempos, uma folha de maconha estampa a capa. Varia o tom do verde, a cor do fundo, algumas palavras do título. Mas é sempre a mesma coisa, já que o assunto continua sendo tratado da mesma forma e não há novidades expressivas sobre ele. Questionar a existência de Deus é outro de seus esportes preferidos, e aí realmente não tem como haver novidades, tendo em vista que a questão é muito subjetiva. Ainda assim, a Super repete. Repete sempre. Enjoa. Cansa.

Postado por Cris Rodrigues

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6 Respostas para “Não muito interessante”

  1. Luciano Viegas 23 maio 2009 às 12:07 am #

    Eu tenho essa revista das dietas aqui bem na minha frente e não tive sequer vontade de dar uma folheada.
    Até cancelei recentemente minha assinatura, e estou pensando em investir o dinheiro em uma assinatura da Caros Amigos, que ultimamente tem me parecido bem mais interessante.

  2. Diogo Kugler 23 maio 2009 às 3:46 pm #

    Outra revista que esta indo pelo mesmo caminho e a Revista TRIP.

    Fui leitor por um bom tempo.. acho que uns 5 anos. Mas depois senti que eles estavam se repetindo.

  3. Eduardo Sounde- (Londres) 24 maio 2009 às 4:10 am #

    Não podemos esquecer das qualidades da revista. Tem o “super papo” que são geralmente duas opiniões opostas (o que estimula reflexão,) O “conexões” eu acho interessante pois mostra que uma história pode transitar por vários lugares diferentes. A super interessante é uma revista que “fomenta” novas percepções convidando o leitor a refletir sobre as questões. Tem muita coisa legal lá e ela é para o público jovem, ou seja, é a “melhor” no público que se propõem.. Mas estás certa quando diz que ela se repete. Certa vez vi um livrinho da revista com a famosa “folha” de jah na capa. Um livro contando tudo…

  4. Paula 25 maio 2009 às 12:01 am #

    Tb cresci lendo e assinando a Super e tb deixei de assinar a revista com uma dor no coração. Pior, eu queria trabalhar na Super quando comecei no jornalismo.
    Pra mim o problema é que com o passar dos anos a revista deixou de ser super-interessante para ser super pop. Tenho a impressão que antes o importante era falar das coisas que ninguém falava – foi na Super que descobri a teoria das cordas, e isso antes dessa física quântica de farmácia fazer fama. Uma capa emblemática dessa mudança foi a do Lost em 20056 (?). Quando uma Super das antigas ia escolher justo o seriado mais comentado pra colocar na capa com uma gama gigante de assuntos interessantes e desconhecidos pululando por aí?
    Mesmo seções clássicas, como o mapa do céu e os artigos na última pg foram deixadas de lado ou pq não eram de fácil entendimento ou pq traziam incomodações. Tinha uma época em q a Super tinha exercícios de lógica, caramba, e exercícios bem complicadinhos.
    Sei lá, acho que em algum momento os diretores decidiram que o público tinha emburrecido e preferiram ir pelo caminho mais fácil – fazer uma revista liiinda em termos de diagramação, mas bem fraquinha de conteúdo. Pena que esqueceram de perguntar pros assinantes.
    Aff, agora deu até saudade da velha Super.

  5. Augusto Machado Paim 25 maio 2009 às 9:07 am #

    Eu tive essa mesma experiência com a Galileu, que li do fim da minha infância até a adolescência. Parei de ler quando entrei na faculdade, achando que já não aprendia tanto com a leitura dela. Pudera, nossos parâmetros e olhar crítico começam a mudar, principalmente com as idéias e textos que temos acesso na faculdade.

    Por outro lado, haja vista o que essas revistas fizeram com a gente, despertando e moldando nossa curiosidade por temas científicos numa idade em que poderíamos estar lendo a Capricho, não há como dizer que ela não têm seu mérito. É uma revista de nicho mesmo, quase que voltada para determinada faixa etária.

  6. brunette 25 maio 2009 às 10:42 am #

    É uma revista liberal.

    Eu gosto.

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