O cara tem sido um sopro de vida nas páginas cada vez mais viciadas de Zero Hora, e é por isso que já viemos há algum tempo acompanhando os passos de Gabriel Brust (aqui, e aqui) em suas andanças pela editoria de cultura. Mas parece que não foi só nós que percebemos as flamejantes e iluminadas pegadas: a própria ZH confiou no rapaz e lhe deu capa e duas páginas centrais de seu caderno Cultura para discutir um tema realmente espinhoso – uma suposta tendência gaúcha de ser “do contra”.
Tema espinhoso, subjetivo. Difícil isso dar certo em duas páginas. Fiquei ainda mais certo do desastre quando vi a assinatura da matéria. Lá estava o nome reluzente de Brust. “Ai meu deus, isso é precipitado”, pensei. Estava correto.
O tal texto “Do contra” já nasce derrotado. Afinal, o que é ser “do contra”? A partir de que ponto de vista? É uma pauta que já nasce carregada de juízos de valor. Mas vamos a eles, os principais exemplos de atitudes gaúchas “do contra” segundo Gabriel Brust, todos rebatidos por este pretensioso blogueiro:
“A proposta para revitalizar a área do antigo Estaleiro Só foi rejeitada sem que se aprove uma substituta – a perspectiva é de que permaneça sendo um lamaçal inacessível à população por muitos anos“: cara, em relação a isso, aprovar o projeto seria ir contra a própria lei do município – esta sim seria uma puta atitude “do contra”, ein… e uma proposta substituta simplesmente não foi apresentada pelos empresários donos do pedaço. Por outro lado, se a população tomasse a área que agora é privada para alguma ação de interesse coletivo, a ZH certamente seria a primeira a classificar a atitude que acabaria com o “lamaçal inacessível” em “vandalismo” e “invasão”. Não é ser “do contra”, é falta de opção mesmo.
“… a construção de um teatro próprio para a Ospa não sai do papel desde 2002, com adiamentos motivados (…) principalmente pela rejeição de grupos comunitários e movimentos ambientalistas“: há uma hipótese mais palpável do que simplesmente uma vontade em ser “do contra” nesse caso. Música erudita já não faz o mínimo sentido pra tanta gente por aqui, conseguiu se afastar tanto do público. Não adianta citar mutirões europeus para a construção de teatros. Lá talvez essa cultura ainda esteja viva. Aqui não. Não tentem empurrar goela abaixo o que vocês acham que é bom, e ainda reclamar depois que a gente não está feliz por receber.
“… a metáfora do balde de caranguejos: quando um tentava sair dele – o que na vida real correspondia a um artista fazer sucesso ou ganhar um reconhecimento além-província –, outro caranguejo logo o puxava para dentro novamente“: esse sentimento de que os artistas locais “nos pertencem”, e um certo sentimento de ciúme quando eles nos escapam, não é exclusividade gaúcha. Mas isso o próprio jornalista descobre no decorrer da matéria. Menos mal.
Enfim, quanto às causas do suposto comportamento “do contra”, temos aí uma lista de achismos. Alguns são mais elaborados, enquanto outros lembram a mais pura filosofia de mesa de bar. Não vale a pena perder tempo com eles.
O que vale mesmo a pena é deixar registrado que aquele rapaz que vinha se destacando nas categorias de base foi jogado direto numa final de campeonato da Série A. E sem nenhum craque com quem pudesse tabelar. “Tu não é bom? então entra e resolve o jogo sozinho”, disse o técnico. Não poderia dar certo. Não deu. Não por falta de talento, e sim por falta de estratégia. Ou quem sabe por desespero de quem não tem mais time pra botar em campo. Esperamos que não tenha sido traumático. E que ainda possamos ver uns bons dribles por aí.
Postado por Ale Lucchese







Alexandre, a pauta era sim espinhosa e, sim, partia de várias premissas duvidosas. Tanto é que todos os entrevistados foram instigados a negar a premissa, derrubá-la, para a coisa ficar ainda melhor.
É uma pauta provocativa, sem embasamento teórico, é verdade, mas que traduziu um sentimento de boa parte da população gaúcha – a de que estemos perdendo o passo da história por um suposto excesso de debate. Estamos mesmo ou é só impressão? Essa era a pergunta.
A prova disso foram as dezenas de emails que chegaram à redação elogiando não a conclusão da matéria (até porque não há), mas simplesmente o fato de termos colocado isso em debate. Nem que seja para concluir que é uma grande bobagem.
Captar esse sentimento das ruas e transformar em debate, ver se ele encontra eco no pensamento de gente boa como o Ruben Oliven (que, como todos os outros teóricos, gostaram muito da discussão) é um dos lados curiosos do jornalismo.
(Quanto à oportunidade no Cultura, bem, fiz mais de 20 capas nos últimos três anos. Não foi exatamente um desafio novo.)
Parabéns pelo bom nível da discussão no blog
um abraço
Gabriel
Rapaz ,
Vamos desviar um pouco o foco. Vamos supor que você, por algum motivo, fosse trabalhar por longos anos em um outro estado deste país.
Tenho certeza absoluta de que com a visão crítica que tem poderia entender e fazer uma análise muito isenta daquela sociedade e suas estruturas culturais, sociais e políticas. É muito mais fácil ver de fora, algo como estar dentro de um rio com um imenso redemoinho mas estar seguro pois tem as mãos na margem do rio.
No meu caso, moro e gosto de morar no Rio Grande do Sul a 20 anos. Há 20 anos esperava um texto provocativo como este do Gabriel Brust ser publicado na ZH. Bom , muito bom.
Pode não agradar, principalmente àqueles extremamente orgulhosos, aliás criados e educados para tanto, mas é enriquecedor.
Parabéns a você e ao Gabriel , o processo é lento .
Peço desculpa pelas minhas palavras simples, escrever não é do meu ofício.
Estes dias eu ouvi o Alexandre Fetter dizer que não tinha entendido a tua critica….isto já demosntra o nível intectual que me encontro…longe de mim achar que posso conceituar algo ou alguém, mas sendo um crítico tu DEVE! emitir opinião…deve…hahahahaha..é um saco..pensando bem…não deve nada.
Com certeza, perceber esse sentimento e fazê-lo caber nas páginas do jornal, mexer com ele, dar vida a esse fantasma, foi uma sacada de sensibilidade. É inegável o mérito de levantar a discussão.
Gabriel, entendo que a matéria não tenha sido realmente um novo desafio. Acompanhamos o trabalho há um bom tempo e quem convive comigo sabe exatamente o quanto admiro o que vem fazendo no Segundo Caderno e no Cultura. Mas, nesse caso específico, tão cheio de subjetividades, devo admitir que achei uma empreitada grande demais para encarar sozinho. Enfim, é uma impressão.
Abraços,
Ale Lucchese