Charge: Um brinde entre Estado e velha mídia

BRINDE FINAL 800PX

 

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Mídia colonizada faz nova tentativa de criar atrito entre Brasil e Bolívia

A cobertura internacional costuma ser uma demonstração clara da parcialidade dos veículos de comunicação ligados aos conglomerados midiáticos. O posicionamento político desse setor da mídia reflete-se tanto no espaço destinado a cada país quanto na abordagem distinta destinada a casos semelhantes.

No próximo dia 28 completa-se um ano da chegada do senador boliviano Roger Pinto à embaixada do Brasil na Bolívia, onde está asilado. O senador pede autorização para sair da embaixada e atravessar a fronteira em direção ao Brasil sem que seja preso pela polícia boliviana. Tem “pelo menos 20 processos na Justiça” contra ele, segundo matéria do jornal La Razón, de La Paz, citada pelo site da BBC Brasil. A mesma matéria diz que os processos “se referem principalmente a acusações de desacato, venda de bens do Estado e corrupção”. O senador alega perseguição política.

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Nesta terça-feira a Globo News pediu uma ação mais forte do governo brasileiro para que Roger Pinto possa escapar para o Brasil, reproduzindo discurso que boa parte da mídia dominante tem propagado desde maio passado. A Folha de S. Paulo, por exemplo, de tempos em tempos publica matérias lamentando as condições em que está vivendo o senador, entrevista sua esposa – que já está no Brasil -, relatando o histórico de “problemas” nas relações entre Brasil e Bolívia…

Essa postura é muito diferente da que os mesmos grupos de mídia tiveram, por exemplo, quando o presidente de Honduras Manuel Zelaya foi deposto por um Golpe de Estado e refugiou-se na embaixada brasileira naquele país. Naqueles tensos momentos os gritos eram para que o Brasil “se livrasse” de Zelaya o quanto antes, os gastos financeiros e o desgaste político eram destacados, e reclamava-se da “fraqueza” do governo brasileiro por não mandar Zelaya embora. Agora o que acontece é exatamente o oposto.

Desde 2009, quando da divergência sobre o gás natural e a Petrobrás, a mídia dominante brasileira tenta criar um clima de desavença entre os governos brasileiro e boliviano. Age como instrumento de quem não quer a efetiva integração entre os países latino-americanos, que vem avançando através dos setores progressistas que chegaram ao poder em alguns desses países a partir do fim do Século XX. Desejam que o Brasil se apequene diante do imperialismo nortista e, ao mesmo tempo, use sua força para avançar sobre países mais pobres. Reforça, a nível internacional, a ideia do dominado que quer dominar, e nada mais.

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Violência policial atinge jornalista do Cimi e evidencia seletividade na defesa da liberdade de imprensa

A seletividade dos gritos por liberdade de imprensa deixa às claras o posicionamento político dos setores midiáticos brasileiros. Em mais uma disputa por terras, frequente em um Brasil de latifundiários nas cidades, na mídia e nos campos, um jornalista do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) teve seus equipamentos apreendidos pela Polícia Federal sem mandato e sem qualquer justificativa legal. O caso aconteceu em Sidrolândia (MS), onde seiscentas famílias indígenas Terena ocupam uma fazenda em uma área declarada em 2010 como de ocupação tradicional do povo Terena pelo Ministério da Justiça. O repórter Ruy Sposati teve confiscados um computador, um gravador e um leitor de cartões USB.

Foto - Cimi

Foto: Cimi

Os colunistas funcionários dos conglomerados de comunicação silenciaram, como silenciarão os autores dos editoriais dos grandes jornais. O Jornal Nacional também silenciou, assim como silenciaram portais de notícias. Os mesmos que gritam por liberdade de imprensa quando atingidos nada falam sobre o caso, provavelmente muitos dos mais cotados colunistas inclusive vibraram com o que costumam entender como direito da polícia a garantir a segurança.

Ruy Sposati trabalha para uma entidade que defende os direitos indígenas, algo pouco palatável para os setores mais conservadores – incluindo seus meios de comunicação e seus jornalistas. Pior ainda quando são indígenas que “ameaçam o progresso” ao “invadirem” terras cujos donos são “o motor da economia brasileira”, ou “o que garante a produção de alimentos”, ou seja, os grandes latifundiários que, como grande trabalho, possuem suas terras.

Para alguns setores midiáticos, para a mídia das elites, a liberdade de imprensa só interessa quando é a própria liberdade o que defendem. Em outros casos, o cerceamento à liberdade não importa, ou ainda é apoiado por esses setores. Há ainda casos em que os conglomerados são, pela via judicial, os próprios cerceadores. Sem falar no cerceamento à liberdade que a própria estrutura midiática brasileira carrega.

Casos de violência policial contra jornalistas se repetem pelo Brasil, e somam-se aos casos de violência judicial e à violência estrutural do monopólio da voz por um setor social. Ao silêncio das empresas junta-se inevitavelmente o silêncio de seus jornalistas, e a categoria segue violentada pela polícia, pela Justiça, pela estrutura midiática e pelos patrões, sem encontrar caminhos para a união que contribuiria na construção de um outro jornalismo, em condições de ser útil, comprometido e respeitado.

Cada um defende o direito à pseudoliberdade das grandes redações, defende seu salário e sua reserva de mercado, enquanto o outro, tão próximo de ser o próprio eu, é afastado, esquecido ou deliberadamente ignorado. Essa prática pode ser vista todos os dias nos veículos de comunicação dos conglomerados, em matérias sobre os mais diversos temas que, ao tratar de seres humanos, os retrata como mercadoria, como objeto para consumo. Perde-se a visão perspectiva, perde-se a noção da realidade, a noção das ruas. Por que seria diferente quando o outro é também um jornalista? Um a mais censurado, atacado, violentado, um a menos para concorrer comigo, uma notícia a mais ou que nem a isso chega. A não ser que seja eu.

* O mesmo jornalista, Ruy Sposati, já havia sido expulso do canteiro de obras do Sítio Belo Monte, próximo a Altamira, em mais uma ação de coerção que pouca ou nenhuma repercussão teve entre os veículos da mídia dominante.

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Internet avança, mas segue limitada

Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) de 2011, divulgados no último dia 15, mostram avanços e limitações da internet no Brasil e, como consequência, dão indícios do potencial e da limitação do ativismo político via web e do uso da internet como espaço de comunicação alternativo. Em 2011 menos de 50% da população brasileira acessava a internet. Porém, o crescimento de pessoas conectadas entre 2005 e 2011 foi assombroso e animador.

Em 2005, 20,9% dos brasileiros usavam a internet. Em 2011 já eram 46,5%. Um crescimento de 45,8 milhões de pessoas, média de 21 mil por dia, como mostrou matéria do site do Estadão. O crescimento é consistente, mas os dados não mostram como se dá, se através de computadores pessoais, lan houses ou acesso nas escolas. Nas escolas públicas há também um aumento importante (24,1% para 65,8%).

O que os dados mostram é que, por um lado, o ritmo de crescimento é muito alto, e a penetração da internet e, consequentemente, a influência e a capacidade de inserção de seu conteúdo têm se expandido com força. Por outro lado, menos de metade da população está conectada, o que mostra que ainda estamos muito limitados, especialmente se considerarmos que certamente a grande maioria dos que acessam a internet não passam perto de conteúdos políticos críticos. Ou seja, nossa capacidade de transformação política em ações que se limitam à internet é muito pequena.

Ficam demonstradas, assim, as possibilidades que vão se abrindo com a expansão da internet, mas, ao mesmo tempo, a necessidade de que o online seja entendido como mais uma plataforma, com suas especificidades, para formas de luta e pautas que a transbordem.

capa

O texto acima é o editorial da 55ª edição do Jornalismo B Impresso, que será distribuída em Porto Alegre na próxima semana. O jornal pode ser assinado em qualquer lugar do Brasil.

Nesta edição trazemos textos sobre o Fórum pela Paz na Colômbia, a questão da neutralidade na mídia, o primeiro ano da Comissão da Verdade e a guerra civil na Síria, além de uma entrevista exclusiva com Mariela Castro, deputada da Assembleia Nacional de Cuba, diretora do Centro Nacional de Estudos de Sexualidade e filha de Raúl Castro e Vilma Espín.

São três as possibilidades de assinatura: 6 edições – R$ 40; 12 edições – R$ 60; 20 edições – R$ 100. As edições são quinzenais. Para assinar, basta entrar em contato pelo email bjornalismob@gmail.com.

Assine o Jornalismo B Impresso e contribua para o crescimento e fortalecimento da imprensa independente.

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O jornalismo de classe e a escolha da notícia

O artigo a seguir é uma colaboração especial de Raphael Tsavkko*

Será que o jornalismo tem lado? Será que o jornalismo discrimina? Ou é reflexo apenas de nossa condição social? Talvez todas as perguntas mereçam a mesma resposta. E vale acrescentar: O jornalismo é reflexo dos patrões, dos padrões e da sociedade.

É claro que Folha de São Paulo, Estadão, O Globo, Zero Hora e demais veículos são conservadores por natureza. Encontramos um ou outro colunista progressista, independente, um ou outro jornalista diferenciado, com liberdade para dar recado, para questionar e sair do padrão social e patronal. Mas são poucos. A média, porém, é ler notícias carregadas de preconceito social, reproduzindo estereótipos sociais, criminalizando a periferia e por vezes criando mesmo dentre o que seria a elite uma imagem estereotipada e irreal.

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A Folha de S. Paulo trouxe nesta quinta-feira, (16) uma notícia que trata do assalto seguido de morte de um rapaz pobre, Ediomario, balconista de padaria no bairro de Pinheiros, de classe média-alta. A mesma notícia fala do assalto a um estudante da PUCSP na saída da faculdade.

Bruno foi baleado no assalto. Não reagiu, mas ainda assim foi vítima da violência assustadora que assola São Paulo e que não será resolvida apenas com policiamento. Aliás, não será resolvida de forma alguma se apenas ampliarmos a violência contra quem taxamos de “marginais”, sem buscar entender e resolver a gênese desta verdadeira crise social.

Ediomario, por sua vez, foi baleado na saída do trabalho, mas não sabemos muito mais do que isso. Reagiu? Não sabemos. Alguma câmera gravou a cena? Não sabemos. Nem tampouco parece importar ao “jornalismo”. A notícia tinha tudo que o jornalismo brasileiro gosta: Personagens, história, sensacionalismo, morte…

Mas vejam como muda a narrativa quando tratamos de personagens de classes diferentes, mesmo que sejam notícias sobre casos semelhantes. Em tese um aluno da PUCSP tem dinheiro, é de classe favorecida, já um balconista é um coitado que vem da periferia, é pobre.

Sem reagir a um assalto, o estudante da PUC Bruno Pedroso Ribeiro, 23, entregou seu celular, mas foi baleado com um tiro no pescoço anteontem à noite próximo da faculdade, em Perdizes.

Em Pinheiros, o balconista Ediomario dos Reis Silva, 22, foi assassinado com dois tiros, nas costas e na cabeça, por dois homens que levaram sua mochila e seu celular.

Em primeiro lugar é óbvio que o espaço pra notícia do “mais rico” é maior, mas antes este fosse o único problema.

A Polícia Militar chegou ao local após o universitário ser baleado, mas houve espera de mais de 20 minutos até ele ser socorrido pelo Samu (serviço médico de urgência).

Reparem que a parte da notícia sobre o puquiano está correta, reclama-se da demora no atendimento (Samu levou mais de 20 minutos para aparecer), detalhes são dados…. Mas no caso do rapaz pobre…:

A mãe de Ediomario, Pulqueria Xavier Reis, descarta a possibilidade de vingança.

Claro, ele era pobre, devia morar na periferia, então devia ter relação com bandido, devia ter feito alguma merda para “merecer” acabar morto. Ele devia ser até um drogado, né?

“O primeiro policial que chegou ao local me disse que, como ele estava ouvindo música [pelo celular], é provável que não tenha ouvido a ordem de roubo”, disse Marcos Antônio de Lorenzo, gerente no trabalho da vítima.

Ana Krepp, a responsável pela matéria precisou entrevistar a mãe e o patrão de Ediomario para se certificar que o rapaz era um “menino direito” e não um bandido morto por vingança?

Se o rapaz na PUC, Bruno, foi alvejado sem motivo aparente, sem reagir, por que não pensaram que poderia ser vingança também? Porque ele é – em tese – rico? E só pobre se mete em confusão e é morto por vingança?

Penso ser grotesca a forma diferente com que os casos muito semelhantes são tratados apenas pelo que me parece ser preconceito claro, escancarado. Quem é da periferia deve ser culpado de início, mas vamos investigar para ver se talvez este seja uma exceção, certo?

Funcionário de uma padaria, Ediomario foi assassinado após encerrar, às 23h40, o expediente. Caminhava em direção ao largo da Batata ao ser abordado por dois homens em uma moto. Eles levaram a mochila e o telefone Samsung Galaxy da vítima, atingida por dois disparos.

Reparem que no caso do balconista Ediomario não há nem a preocupação em se dar a notícia correta. No começo falam em dois tiros nas costas e um na cabeça, no fim que foram só dois disparos. E nada sobre Samu, sobre polícia, sobre quanto tempo demorou o atendimento, se teve atendimento…

Aliás, Ediomario só foi notícia pois morreu em Pinheiros, fosse na periferia era nota de rodapé, com “sorte”. Este é o retrato de uma sociedade desigual, preconceituosa e incapaz de enxergar humanidade naquele de classe diferente. Ediomario saiu de uma “padaria” para a morte, Bruno saiu da prestigiosa PUCSP, escrita por extenso na notícia, denotando o orgulho da classe média.

Alunos da PUC protestaram por mais segurança, justo, há uma campanha de doação de sangue para Bruno, também justo, mas quem protestará pelos mortos da periferia e por Ediomario?

*Raphael Tsavkko Garcia é militante dos Direitos Humanos e da Rede Livre, membro do Coletivo Mega, contra a censura na rede. Blogueiro, jornalista, formado em Relações Internacionais (PUCSP) e Mestre em Comunicação (Cásper Líbero). Mantém o Blog do Tsavkko – The Angry Brazilianescreve e traduz para o Global Voices Online e escreve para a Fundação Bertelsmann.

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Charge: Donos do poder e donos da mídia – uma relação de amor

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Deputados promovem evento sobre liberdade de imprensa com mesa coordenada pelo Estadão

Um evento sobre liberdade de imprensa teve lugar nesta terça-feira na Câmara dos Deputados, em Brasília, e os discursos rasos sobre o tema se repetiram, como costuma acontecer quando o âmago dos assuntos precisa seguir encoberto para não ser modificado. O Estadão publicou com destaque em seu site uma matéria a respeito do encontro, com declarações de diversos deputados que pouco ou nada dizem sobre a situação da liberdade de imprensa no Brasil ou sobre soluções para o grande problema que enfrentamos no setor: a extrema concentração.

liberdade

O encontro foi mediado justamente por um representante do Grupo Estado, o diretor de Conteúdo Ricardo Gandour, e isso explica muita coisa, não apenas relacionada ao encontro. A proximidade entre o Poder Público e os conglomerados de comunicação é parte das razões para os entraves criados a qualquer tentativa de democratizar a comunicação, de acabar com o monopólio da informação por um mesmo grupo social.

O representante do Estadão reclamou dos processos judiciais como ameaça à liberdade de expressão, e nisso tem razão. Mas é importante deixar claro que, além de políticos processando jornais, temos casos de políticos e mesmo de veículos de comunicação processando blogueiros, o que torna a disputa judicial ainda mais desleal pela diferença de aparato jurídico e econômico.

Segundo a matéria do site, Ricardo Gandour também “destacou que a Constituinte aconteceu enquanto ainda estava em funcionamento a censura prévia”. É interessante, a partir dessa fala, lembrar a contradição inerente à presença de um representante do Grupo Estado em um evento que diz tecer loas à liberdade de expressão. Hoje o Estadão é apenas um agente em defesa do direito de poucos de fazer da liberdade um privilégio de poucos. Há poucos anos era, além disso, um espaço de manifestação do discurso da Ditadura Militar – apesar de mais tarde ter sofrido com o autoritarismo que ajudou a levar ao poder e a manter lá – como mostram as capas abaixo. Chamava a Ditadura de Revolução, e a capa seguinte demonstra que não era apenas uma “expressão da moda”, já que Fidel Castro é tratado como ditador, enquanto Castelo Branco é presidente.

Capa Estadão 1965.10.07

Reprodução Acervo Estadão

Capa Estadão 1966.07.07

Reprodução Acervo Estadão

O flerte constante entre o Poder Político e o Poder Econômico, como no caso em que um representante de um conglomerado de comunicação media um debate da Câmara dos Deputados sobre liberdade de imprensa, leva à constante confusão entre público e privado. Esse é um caminho cultural óbvio para a corrupção, para o individualismo exacerbado e, no caso da mídia, para o tratamento da liberdade de expressão como uma propriedade privada – dos grandes empresários da mídia.

As concessões, por exemplo, públicas e que deveriam ser renovadas a cada 10 e 15 anos em votações nominais no Congresso, renovam-se automaticamente. As verbas publicitárias se mantêm sempre nas mãos dos mesmos, dos conglomerados, sem qualquer preocupação em usá-las de forma pública, ou seja, de acordo com os interesses da maioria. E que maior interesse pode haver do que expressar-se com liberdade e informar-se corretamente? E que debate pode ser feito nesse sentido quando a condução está a cargo de um representante de um dos privilegiados donos da liberdade?

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